01 julho, 2010

Klaus.


Se tivesse que defini-lo com uma frase, certamente seria ‘O mundo é tão grande a ponto de ser engolido por nossos pensamentos’.

Conheci Klaus há mais ou menos 3 anos enquanto caminhava na praia no auge do inverno. A areia estava úmida e o mar agitado. Gaivotas passeavam mansamente pela calçada, e ele estava sentado no meio-fio, apreciando a paisagem. Seus olhos grandes e castanhos olhavam fixamente para as espumas que se formavam nas ondas, como se quisesse trazê-las para dentro de si. Os cabelos castanhos, lisos e bagunçados caíam perfeitamente na face pálida pensativa. Por um segundo ele se virou e encontrou meus olhos nos seus. Parecia que queria dizer alguma coisa com aquele olhar distante, e após aquilo, passamos a tarde sentados na beirada da calçada, conversando sobre banalidades. Agora fazia mais de dois anos que não tínhamos mais contato um com o outro, até que ele apareceu mais uma vez.
Na verdade, ele não mudou nada – continua com o corpo e alma vagando em centenas de milhares de lugares, balbuciando frases que normalmente eu não entendia, e ainda arrancando os mais profundos segredos das pessoas com a força de seus olhos. Acho que já é hora de entrar mais a fundo nessa personagem tão peculiar.
Klaus não tem sobrenome, nem casa, nem pais e nem planos materiais. Foi a escolha que ele fez. Sim, simples assim. Tão simples que ele nunca sentiu falta dessas coisas, nunca as teve. Klaus é sozinho no mundo. Não tem amigos, amantes, confidentes ou conhecidos. Ele faz questão de ser sozinho. Foi a escolha que ele fez. É um homem sério, não bem um homem, por que na verdade não se sabe sua idade, só que não é tão novo para ser uma criança, e nem tão velho para ser um adulto no auge dos 30. Sorri para poucas coisas da vida, mas sorri por dentro, com suas reflexões.
Klaus tem um único e grande amor: Os sonhos. Vive sua vida à cata da compreensão dos sonhos dos outros. Quer entender, tatear, ver, ouvir e saborear o que as mais profundas confidências de nossos corpos têm a nos dizer. Klaus não é introspectivo, é retrospectivo.
Admito que o achava meio lunático, ele sempre dizia coisas do tipo ‘Não subestime o valor das estrelas, é engano nosso achar que elas são desprezíveis por estarem tão longe de nós. Só elas sabem o que o mundo inteiro fez e faz. Só elas guardam a chave da libertação das nossas almas e da realização dos nossos sonhos’. Eram discursos lindos, devo admitir, mas eu era nova e não entendia mais da metade. Agora os tempos são outros.
Nos reencontramos semana passada enquanto eu estava caminhando na volta do colégio. Klaus estava olhando uma vitrine de uma loja de bijuterias. ‘Não é fascinante?’, ele disse. ‘Não importa quanta tecnologia e conhecimento tenha, o homem sempre vai falhar em tentar imitar o brilho do sol e a cor dos nossos olhos. O segredo é enxergar por dentro, e não por fora!’. Perguntei onde ele esteve esse tempo todo, mas minha indagação foi ignorada. Parece que Klaus só estava esperando um bom momento para aparecer. Foi inesperado, mas muito agradável. Desta vez tivemos conversas mais maduras. Falamos de coisas que normalmente os outros se sentem desconfortáveis ou sem argumentos para se pronunciarem; falamos nos nossos mais profundos sentimentos; falamos de coisas boas e ruins em nossas vidas. Vi um ar diferente nele, parecia ser de uma leve preocupação. Fiquei um pouco receosa ao perguntar, mas não resisti e toquei no assunto. Fitou-me com olhos cansados e entristecidos e falou:
Calma. Calma por que o mundo está girando rápido demais e você quer desacelerá-lo antes do tempo certo. Tudo que se passa na sua cabeça está começando a se engessar e você não está percebendo. Quantas vezes vai ser necessário sua mente martelar sempre na mesma tecla até você entender que esses problemas só vão passar quando você amadurecer? Não queira se achar a adulta responsável, cheia de problemas e compromissos por que isso só desgasta todos ao seu redor, sem falar na sua mente e corpo que começarão a definhar se não se der conta disso.
Entendo seus argumentos. Sei das suas lamentações. Sinceramente, não acho que você não esteja com razão nenhuma para reclamar dessas várias coisas que passam na sua mente, mas pelo menos agora, tente abstrair. Descanse. Não cresça antes do tempo... Aliás, você já está adiantada demais para uma série de fatores, então relaxe. Dói? Dói. Pesa? Pesa. Se sente culpada por ter tantas coisas ruins passando por você e você sentir que nada está dando resultado? Se sente. Acha que fez o possível e o impossível para resolver? Se você acha, por que não esperam as sementes germinarem para em breve darem os frutos?
Cansaço, raiva, culpa, medo, tensão, estresse e mais alguns que você prefere nem lembrar. Se o passado está incrustado em você agora, então resgate nos seus arquivos as coisas boas também, como a idéia de colocar as coisas na balança. De um lado todas essas coisas e do outro... Preciso realmente dizer? Você sabe melhor que eu... Ah se sabe. Tem uma vida invejável, e está querendo manchar o diamante que você mesma, ou melhor, vocês dois lapidaram durante tanto tempo por processos de amadurecimento? És um ser humano, não esqueças disso. E siga o exemplo de alguns: Vai. Segue teu barco, toca tua vida e conduz teus sonhos. Por que de nada adianta sentar na pedra no meio do caminho e ficar se perguntando se têm coisas sendo feitas para o seu mal. Sua curta experiência de vida e seu bom coração já têm a resposta.
Espera a semente germinar, os frutos ainda não apareceram. Calma.
Estou me convencendo de que Klaus chegou na hora certa.

0 Copos(s):