24 julho, 2010


And I've made stairways
Such scenes for things that I regret
Oh, those days in the sun
They bring a tear to my eye

23 julho, 2010

Igore.


Nunca se esqueça de que os maiores gênios da humanidade não gozavam de plena sanidade mental. Na realidade se isso ocorresse, eles nunca atingiriam o patamar de semideuses, mas sim pessoas normais que não seriam imortalizadas, seriam assim, como eu e você. Não duvide da capacidade de um louco, nunca. E não zombe do que um artista expressa, ainda mais quando se trata de Igore. Na sua casa no meio das montanhas, ela pinta todas as noites: nas telas, paredes, janelas, flores, árvores, móveis, cadernos. Não é que Igore seja extremamente criativa ou produtiva, ela só é profundamente instável emocionalmente. Igore pinta por que algo se meche em seu interior, algo que se meche todos os dias a muito tempo, e isso despertou seu dom. Igore não vende o que produz. Na verdade, não possui renda, vive de favores. As pessoas não cobram nada e não a questionam por que a acham louca. Os mais eufemistas só dizem que “A mulher é deprimida, coitada. Vive no meio do nada, não tem nem um bichinho de estimação pra fazer companhia... Provavelmente é um amor não correspondido”.
Igore chora todas as noites antes de dormir, mas não chora por que está triste. Chora por que precisa, é uma teoria dela. A teoria de que todas as pessoas deveriam chorar todos os dias para aliviar as tensões e dores das feridas que o mundo causa. De manhã prepara seu chá e observa a paisagem de sua varanda, os picos cobertos de neve nas montanhas distantemente próximas, enquanto alisa seus longos cabelos castanhos. Igore já sentiu muitas coisas ruins no decorrer de sua vida: já sentiu raiva, tristeza, inveja, ciúmes, desilusão e tantas outras que não faz sentido ser citados... E cansou. Por ter cansado de viver cercada por coisas ruins, abriu mão das boas também para refazer a vida de um jeito que ela só imaginava ser possível em livros e filmes. Pintando em uma casa no meio das montanhas, sozinha, pensativa e imparcial. Igore não sabe se é feliz agora. Na verdade, ela não sabe o que pensar sobre sua atual condição de vida. Uma linha tênue entre o ócio e o delírio. A chateia saber que é uma mulher que sempre foi elogiada em sua ‘vida passada’ por ser muito inteligente, sendo que sempre esperou mais, sempre esperou pelo “extremamente inteligente”.
Amores? Pois bem, ela foi casada. Foi feliz por anos com seu marido, mas a cada dia algo que ela não entendia a consumia por dentro quando seu homem olhava de uma maneira eufórica para a mulher do outro lado da rua, uma advogada qualquer. E acontecia por uns bons anos. Isso não atrapalhava a vida do casal (porque ela não falava) e não causou atrito, mas de qualquer forma, Igore abriu mão dessa realidade para se dedicar à pintura. Foi uma decisão que tinha tudo para ser difícil para ela, que era bem resolvida financeira e socialmente, possuía amigos de verdade, uma vida aparentemente perfeita. Mas seu interior era inquieto, e pedia algo que os outros não compreendiam.
Seus amigos não sabiam quem ela era, seu marido nunca foi um amor de verdade, seu status era uma piada. Agora Igore pensa que sua ‘vida passada’ foi uma divina comédia. Cansou de ficar triste por saber que tinha amizades falsas, que nunca amou ninguém e nunca foi amada, e algo no seu interior sempre a perturbava.
Agora é uma mulher imparcial sobre o mundo, com a rotina que construiu sem a intervenção de ninguém. Ela conseguiu o que queria sem precisar ouvir a opinião dos outros, ou se sentir mal com as atitudes as pessoas que a cercava. Igore finalmente está construindo seu mundo, junto com seu interior inquieto.

14 julho, 2010

Alterne.


E nao se canse de repetir que a fuga da realidade pode apaziguar nossas mentes e nos manter prontos para os conflitos da vida urbana (ou rural, tanto faz). Sim, alterne. Entre o imaginario, o surreal e o conflitante. Depois desse devaneio todo, provavelmente voce conseguira ver o belo no feio. Por que no surreal e no imaginario tudo é relativo, so o conflitante tenta engessar nossos neuronios.
Ignore, sao dias em que nao faco bom uso da inspiracao que evapora da minha cabeca.
"Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua"
Só não esqueça das vezes que os planos podem sofrer um desvio perigoso. Mais do que imaginamos.

13 julho, 2010

Trapped beneath my pillow.


Com os pes no inferno dentro do paraiso. Um lindo paradoxo, mas nao tao belo quando se trata da mais pura realidade. Na realidade, é um pouco desestimulante saber que os problemas podem te acompanhar para ate mesmo os lugares mais remotos e pacificos da sua mente. Por mais que nao gostemos das condicoes impostas e temos plena conviccao de que nao estamos errados, vao apresentar argumentos contra sua logica e te deixar para baixo. Mas isso nao significa que todos os outros ao redor nao estejam ao seu lado. O lado bom? Quando um esta contra voce, sempre tem 10 ao seu favor. Isso é, se voce estiver realmente certo, com a consciencia limpa e seguro de suas decisoes.

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Klaus olhava para as nuvens que raspavam no aviao em que nos encontravamos. Foi uma feliz coincidencia saber que ele estava indo parar Brasilia tambem, e mais feliz ainda por ele ter pego as mesmas conexoes que eu. Parece até obra do destino. Me falou sobre as lembrancas dele quando olhava para os diferentes tipos de nuvens, mostrou como é lindo o céu limpo e azul no inverno, e como sempre, deu conselhos. Mas dessa vez foi algo mais breve.
"Aproveite esses dias como se fossem os ultimos da sua vida, por que na realidade, serao os ultimos de todo esse ano. Acredite, depois que o final de dezembro chegar, voce vai entender. E vai entender que nao se trata so de vida academica, mas principalmente de vida na integra."

09 julho, 2010

Clear as the sky.

05 julho, 2010


Hey, just look at the mess you made today
Didn't really think it would get this bad
Hey, feel like you're living in a Russian play
Where it seems like you made everybody mad

03 julho, 2010

Profundamente...Vazio.


"Minha pele-de-pêssego-maduro estou alucinado pra te ver te tocar te cheirar de novo e há mais o tesão do medo da bandeira do terreno proibido qualquer coisa parecida com violentação defloração transgressão estupro até - se você não quisesse, o que é absurdo, e os sonhos (no fundo um só) se repetem. Mas ainda reluto (tamos) porque parece que qualquer coisa raríssima (ponha raridade nisso!)vai se perder, um seixo liso, miúdo, verde, uma porcelana que escorrega dos dedos e cai pra sempre no escuro do poço, quando ainda é amanhã
Você me chama de maluquinho e pede histórias mais histórias sempre histórias você quer histórias como alguém que nasceu aos quinze anos e perdeu todo o background de lobos, cordeirinhos, ursos, chapéus vermelhos, cantigas de ninar, suspense dos infelizes que se perdem na floresta e foram parar na jaula da bruxa. Você não se importa de não entender minhas cartas, o que você quer é a música, a sugestão, o que parece ser, o que você quer é este amor espicaçado palavroso tenso marginal e louco que te dou. O que você quer é puramente me ouvir porque eu sou um mágico tirando coelhos da cartola e você é uma criança encantada que acredita em mágica
Você pede histórias e mais histórias e mais histórias
Você quer é substituir a vida tosca desta vida por uma coleção infinita de histórias onde só acontece o melhor porque só acontece o que a gente quer e o que a gente quer é não ter medo
eu ia te contar qualquer coisa que já esqueci porque era mentira"
Por Cristovão Tezza, Livro "Trapo"

28 junho, 2010

Capisce?


Nós não deixamos de temer nossos monstros de um dia para o otro, tanto é que demora alguns anos para perdermos o pavor do escuro (e passar a admirá-lo, dependendo da situação). Não é por que não somos crianças mais que não teremos processos de superação de momentos. E tem vezes que esses processos de superação demoram. E nem sempre temos a data certa de quando vai melhorar por completo. Mas se houver sempre as doses homeopáticas do remédio que nos fortalece, esse monstro da nossa mente não martelará em nossa mente do mesmo jeito que antes. Infelizmente, nosso metabolismo não acelera para sumir com os problemas. Mas ameniza.

25 junho, 2010

Lirismo dos clowns de Shakespeare


Ó belas formas aveludadas
De teus gestos surgem as mais belas melodias
Que nem os mais belos pássaros
Conseguem gorjear.

E de teus olhos amendoados
Cores e sabores se misturam
Nessa bela música
De dois livres apaixonados.
De dois livres apaixonados...
De...

De duas estrofes que reproduzem uma banalidade que cruza os séculos. Estamos contentes até mesmo com o comodismo literário. Amantes do seu não merecido lugar ao sol, por que na realidade... Ah sim, realidade não há para vocês. Construções milimetricamente planejadas para parecerem espontâneas e geradas em momentos de êxtase. Mas nem ao menos sabem o que é êxtase.
“Eu líricos” do século 21, onde o comodismo paira sobre nossas cabeças. “Não tem mais o que se produzir” dizem tantos. Não, não tem mais o que essas mentes podem produzir. Estão ocupadas em reproduzir. Palavras rebuscadas, melodias e versos açucarados... Não tenho tanta coisa contra isso, por que afinal beleza sempre é bem-vinda em um mundo carente de visões que tentam agarrar o horizonte e engarrafar nos olhos marejados do mundo frio e profanado. Na realidade, o que mais assusta do que enraivece (ou vice-versa, não sei ao certo), são os mórbidos. “Sou a vítima desse mundo, o aborto que deu errado! Minha existência não faz diferença para esse mundo. E meu pai me dá uma mesada de 3 mil reais”. Ao menos os verdadeiros literários que eram ricos e se lamentavam, fizeram diferença no mundo tirando a visão alienada do Romantismo. Só que os tempos são outros. Uma era de egocentrismo tão grande que não nos damos conta tantas vezes de que nossos problemas não são tão ‘problemáticos’ assim. Só são difíceis. Agora, se você tem câncer, AIDS ou qualquer coisa do gênero, até entendo você se lamentar mas... Enfim. Nos alienamos na tentativa de libertarmos da capenga banalidade.
É uma situação mais delicada do que parece, na verdade. Por que isso também é conseqüência de vozes de comando induzindo ao erro. O dilema de que para nos libertarmos devemos procurar conhecimento. Problema da minha (E provavelmente da próxima) geração: Sim, buscamos o conhecimento. Mas dá para contar nos dedos os que acham e absorvem. Ou até mesmo se acha, mas absorver já é uma tarefa árdua. Sem dúvida aspiramos fazer algo grande, realmente grande para primeiramente alimentar o nosso ego e depois nos sentirmos altruístas e contentes com o mundo (se você tem pelo menos um pingo de amor próprio, deve pensar em fazer algo para alimentar seu ego. É a realidade, admita!), só que dar o primeiro passo usando ‘ósculos e amplexos’ no seu léxico, ao meu ver, não é um bom começo.
Ah sim, mas você tem um profundo interesse nessa parte da língua, nessa forma de expressar seus mais profundos sentimentos e aliviar seus fantasmas. Se isso te faz feliz. Até pode obter êxito... Se inovar em uma linha de pensamento que já foi tão bem aproveitada, tão desgastada que agora não é vista com bons olhos por todos.
Colocando alguns parênteses na situação, estou me referindo aos ricos alienados que cometem estas atrocidades para chamar a atenção, e não expressar quem ou o que ou sei-lá-o-quê. Por mais paradoxal que pareça, muito já escrevi (E ainda escrevo!) assim.
E há a grande chance de eu estar profundamente enganada. Já que o ‘In’ é ser ‘Old’.


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Me recuso a esconder meus sentimentos, não poder mostrá-los no meu santuário.

19 junho, 2010

Vês?


E por ser algo da minha cabeça
Eu sou obrigada a aceitar algo que me faz tão mal?
Por que se ciúmes é algo que consome por dentro
Então ele está começando a surtir efeito.



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18 Dias para nossas almas colidirem e criarem outra Supernova.

11 junho, 2010

Try to fade away with the pale-blue ocean eye


Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o Romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

03 junho, 2010

Heterônimo.


Traço o trajeto da sua carapaça sem ao menos saber o caminho do labirinto da minha mente. Me sacrifico para carregar os fardos pesados da nova ordem so sei-lá-o-quê. Resmungo muito. Talvez por que não tenha muito o que elogiar ao ver um mundo inteiro entrando em putrefação. Sendo que, se parar para ver bem, cada mutação tem sua leveza, digamos.
Sou Machado, sou Kundera. O que se diz muitas vezes vale mais do que se faz. As vezes Exupéry ou Gaarder, incubindo à humanidade a tarfa de guiar todos a luz, pouco a pouco. Os lábios estão em brasa, o veneno que escorria agora está parcialmente seco. É necessário refinar as idéias.
Sou Descartes, sou Maquiavel (Muito pouco, por sinal), nada corre bem sem o método, sem o procedimento apropriado.
Sou muito, quero muito. Quero Tolkien, o dom de ter um dom. Criar o imaginário. Imaginar a criação... E concretizar a vida.
A verdade é que ninguém é um, e muitos são nada. São só os fardos pesados da nova (nova?) ordem.

28 maio, 2010

Os caçadores de segunda-feira à noite.


“Não podemos evitar. Nas tardes de domingo e nas noites de segunda-feira, no outono de cada ano, abandonamos tudo para observar as pequenas imagens em movimento de 22 homens – colidindo uns com os outros, caindo, levantando, e chutando um objeto alongado feito com a pele de um animal. De vez em quando, tanto os jogadores como os espectadores sedentários são levados ao êxtase ou ao desespero pela evolução do jogo. Em toda parte, nos Estados Unidos, as pessoas (quase exclusivamente homens), paradas diante das telas de vidro, torcem ou resmungam em uníssono. Descrito dessa forma, parece estúpido. Mas, quando se adquire o gosto pela coisa, é difícil resistir, e falo por experiência própria.

Os atletas correm, saltam, batem, deslizam, lançam, chutam, derrubam – e há uma emoção em ver os humanos fazerem tudo isso tão bem. Eles brigam entre si até caírem no chão. Gostam de agarrar, tacar ou chutar um veloz objeto marrom ou branco. Em alguns jogos, tentam levar o objeto para o que é chamado de “gol”; em outros, os jogadores se afastam e depois retornam “para casa”. O trabalho de equipe é quase tudo, e admiramos como as partes se encaixam para formar um todo triunfante.

Mas essas não são as habilidades com as quais a maioria de nós ganha o pão diário. Por que nos sentiríamos compelidos a observar pessoas correndo ou dando golpes? Por que essa necessidade aparece em todas as culturas? (Os egípcios, persas, gregos, romanos, maias e astecas antigos também jogavam bola. O pólo vem do Tibete.)

Há craques dos esportes que ganham cinqüenta vezes o salário anual do presidente; outros que são eleitos para altos cargos depois de aposentados. São heróis nacionais. Por que exatamente? Há algo nessa questão que transcende a diversidade dos sistemas político, social e econômico. Algo primevo nos atrai.

A maioria dos esportes mais importantes está associado a uma nação ou cidade, e eles contêm elementos de patriotismo e orgulho cívico. O nosso time nos representa – o lugar onde vivemos, o nosso povo – contra aqueles outros sujeitos de um lugar diferente, habitado por um pessoal desconhecido, talvez hostil. (É verdade, a maioria dos “nossos” jogadores não pe realmente do lugar onde jogam. São mercenários, que em sã consciência regularmente abandonam cidades adversárias por vencimentos mais rendosos. Um pirata de Pittsburgh se regenera e passa a ser um Anjo da Califórnia; um Padre de San Diego é promovido a Cardeal de St. Louis; um Guerreiro de Golden State é coroado Rei de Sacramento. De vez em quando, todo um time decide migrar para outra cidade.)

Os esportes competitivos são conflitos simbólicos, mal disfarçados. Isso não é uma idéia nova. Os cherokees chamavam sua antiga forma de lackrosse de “o irmão pequeno da guerra”. Ou, passando a palavra para Max Rafferty, ex-superintendente da Instrução Publica da Califórnia, que, depois de chamar os críticos do futebol universitário de “malucos, desmiolados, comunistas, beatniks cabeludos e falastrões”, declara: “Os jogadores de futebol [...] possuem um espírito de luta claro e luminoso que é os próprios Estados Unidos”. (Isso merece reflexão.) Um sentimento freqüentemente citado do falecido técnico de futebol profissional Vince Lombardi é que o importante é vencer. O ex-técnico dos Washington Redskins, George Allen, dizia o mesmo da seguinte maneira: “Perder é como morrer”.

Na realidade, falamos de ganhar ou perder uma guerra tão naturalmente como falamos de vencer e perder um jogo. Numa propaganda televisiva de recrutamento do Exército dos Estados Unidos, vemos as conseqüências de um exercício de guerra armada, em que um tanque destrói outro. Como slogan, o comandante do tanque vitorioso diz: “Quando vencemos, todo o time vence – e não apenas uma pessoa”. A conexão entre o esporte e o combate fica bem clara. Sabe-se que os fãs (a palavra é a abreviatura de “fanáticos”) do esporte têm cometido agressão, e às vezes homicídio, quando escarnecidos por causa de um time perdedor; ou quando não podem torcer por um time vencedor; ou quando sentem que o juiz cometeu uma injustiça.

Em 1985, o primeiro-ministro britânico foi obrigado a denunciar o comportamento embriagado e desordeiro dos fãs de futebol britânicos que atacaram um contingente italiano por ter o atrevimento de torcer pelo seu próprio time. Muitos foram mortos, quando as arquibancadas vieram abaixo. Em 1969, depois de três jogos difíceis de futebol, os tanques de San Salvador atacaram portos e bases militares em Honduras. Nessa “Guerra de Futebol”, as baixas chegaram aos milhares.

Os homens das tribos afegãs jogavam pólo com as cabeças cortadas de antigos adversários. E há seiscentos anos, no lugar em que hoje é a Cidade do México, havia uma quadra de jogar bola em que os nobres magnificamente vestidos observavam a competição de times uniformizados. O capitão do time perdedor era decapitado, e os crânios dos outros capitães perdedores eram exibidos em grades.

Vamos supor que você esteja mexendo à toa no botão da sua televisão e encontre uma competição em que não tenha nenhum investimento emocional particular – vamos dizer, uma partida amistosa de voleibol entre Myanmar e Tailândia. Como é que você decide para quem torcer? Mas espere um minuto: para que torcer por algum dos times? Por que não se divertir apenas observando o jogo? A maioria de nós tem problemas com essa postura distanciada. Queremos tomar parte da competição, queremos nos sentir membros do time. O sentimento simplesmente bis arrebata, e começamos a torcer “Vamos, Myanmar!”. No início, nossa lealdade pode oscilar, primeiro incitando um dos timer e depois o outro. Às vezes torcemos pelo que está perdendo. Outras, vergonhosamente, até viramos casaca, abandonando o perdedor e torcendo pelo vencedor, quando o resultado se torna claro. (Quando há uma série de campeonatos perdidos, a lealdade dos fãs tende a se transferir para outro time.) O que procuramos é a vitória sem esforço. Desejamos ser envolvidos em algo parecido com uma guerra pequena, segura e bem-sucedida.

[...]A espécie humana tem centenas de milhares de anos (a família humana tem vários milhões de anos). Levamos uma vida sedentária – baseada no cultivo da terra e na domesticação dos animais – apenas nos últimos 3% desse período, no qual se encontra registrada toda a nossa história. Nos primeiros 97% de nossa existência sobre a Terra, quase tudo o que é caracteristicamente humano veio a ser. Assim, um pouco de aritmética sobre a nossa história sugere que podemos aprender alguma coisa sobre aqueles tempos com as poucas comunidades de caçadores-coletores que ainda restam sem terem sido corrompidas pela civilização.

[...]Por isso, considerem o seguinte: durante milhões de anos, nossos ancestrais masculinos andaram correndo por toda parte, atirando pedras nos pombos, perseguindo filhotes de antílopes e agarrando-os em luta corpo a corpo, formando uma única linha de caçadores a correr e gritar contra o vento para aterrorizar um bando de javalis perplexos. Imaginem que a vida deles depende de seu talento de caçador e do trabalho em equipe. Grande parte da sua cultura é tecida no tear da caçada. Bons caçadores são bons guerreiros. Então, depois de um longo período – digamos, alguns milhares de séculos -, uma predisposição natural tanto para a caça como para o trabalho em equipe vai aparecer em muitos meninos recém-nascidos. Por quê? Porque caçadores incompetentes e pouco entusiasmados têm prole menor. Não acho que a maneira de lascar uma pedra para formar a ponta de uma lança ou o modo de emplumar uma flecha esteja em nossos genes. Tudo isso é ensinado ou inventado. Mas o gosto pela caça... aposto que isso faz parte de nosso hardware. A seleção natural ajudou a transformar nossos ancestrais em caçadores magníficos.

A evidência mais clara do sucesso do estilo de vida caçador-coletor é o simples fato de que se espalhou por seis continentes e durou milhões de anos (para não falar das tendências à caça dos primatas não humanos). Esses números têm um profundo significado. Depois de 10 mil gerações em que a matança de animais foi a nossa defesa contra a ameaça de morrer de fome, essas inclinações ainda devem estar conosco. Sentimos vontade de empregá-las, mesmo vicariamente. Os esportes de equipe nos fornecem um meio de satisfazer esse desejo.

Alguma parte de nosso ser deseja se juntar a um pequeno grupo de irmãos para realizar uma aventura ousada e intrépida. Podemos observar essa característica nos jogos de computador e nos RPGs que fazem sucesso entre os meninos pré-púberes e adolescentes. As virtudes viris tradicionais – a taciturnidade, a engenhosidade, a modéstia, a precisão, a coerência, o profundo conhecimento dos animais, o trabalho em equipe, o amor pela vida ao ar livre – eram todas comportamento de adaptação nos tempos dos caçadores-coletores. Ainda admiramos essas características, embora quase tenhamos nos esquecido da razão.

Além dos esportes, há poucas saídas para dar vazão a essas tendências. Nos meninos adolescentes, ainda podemos reconhecer o jovem caçador, o aspirante a guerreiro – pulando pelos telhados das casas; andando sem capacete em motocicletas; criando encrenca para o time vencedor numa celebração depois do jogo. Na ausência de um controle moderador, esses antigos instintos podem ter conseqüências um pouco desastrosas (embora a nossa taxa de homicídios seja mais ou menos igual à dos caçadores-coletores que ainda existem). Tentamos assegurar que qualquer gesto residual pela matança não se volte contra os humanos. Nem sempre temos sucesso.

Penso no poder desses instintos de caça e me preocupo. A minha preocupação é que o futebol das noites de segunda-feira não seja suficiente para o caçador moderno, vestido de macacão, jeans ou um terno de três peças. Penso naquele antigo legado de não expressar os novos sentimentos, de manter uma distância emocional daqueles que matamos, e isso tira do jogo parte da diversão.

Os caçadores-coletores em geral não representavam perigo para si mesmos, por vários motivos: suas economias tendiam a ser saudáveis (muitos dispunham de mais tempo livre do que nós); tinham poucas posses por serem nômades, assim quase não havia roubo e experimentavam muito pouca inveja; a ganância e a arrogância eram consideradas não só males sociais, mas também quase doenças mentais; as mulheres tinham um poder político real e tendiam a ser uma influência estabilizadora e moderadora, antes que os meninos começassem a se ocupar das flechas envenenadas; e, se crimes sérios fossem cometidos – vamos dizer, assassinato -, o bando, coletivamente, julgava e punia o criminoso. Muitos caçadores-coletores organizaram democracias igualitárias. Não tinham chefes. Não havia hierarquia política ou corporativa que sonhassem galgar. Não havia ninguém contra quem se revoltar.

Assim, se estamos a algumas centenas de séculos do período em que gostaríamos de estar – se (por nenhuma falha nossa) nos descobrimos numa era de poluição ambiental, hierarquia social, desigualdade econômica, armas nucleares e perspectivas em declínio, com emoções do Plistoceno, mas sem as salvaguardas sociais do Plistoceno -, talvez possamos ser desculpados por um pouco de futebol nas noites de segunda-feira.”

Carl Sagan.

16 maio, 2010

Un bon apéritif

Sete coisas para dizer quando alguém perguntar "aquela é a torre Eiffel?"
1 . Não, é um poço de petróleo. A França também está investindo no pré-sal. Ou você não sabia que Paris era uma praia há 5 mil anos?
2 . De jeito nenhum. É o arco do triunfo. Não sei por que todo mundo insiste em trocar o nome dos dois.
3 . Hã? Aquilo não estava ali ontem. Corre, corre, antes que ela cresça ainda mais e pegue a gente.
4 . Você precisa saber de uma coisa. Não existe torre Eiffel, não existe Paris, não existe a França. Segundo a teoria espírita, o mundo material é o plano moderador do caráter individual. Traduzido para a linguagem dos nossos dias, isso significa que a cada segundo ídolos, torres, totens e McDonald's são criados e destruídos. Quanto a mim, prefiro meu McChicken com mais maionese, mesmo sabendo que corro o risco de ter um enfarte. Mas, pensando bem, McChicken, maionese, enfarte e gols do Zidane são coisas que só existem na sua cabeça. Fui claro?
5. Torre Eiffel? Não é o Coliseu? Não estamos em Roma? Vou matar aquele agente de viagens.
6. Você pode chamá-la de torre Eiffel. Eu a chamo de Marta. Assim, só porque é mais bonitinho.
7. Rapaz, não é que é ela mesmo? Como é que eu nunca tinha visto?

Sete desculpas para não ir novamente ao Louvre e ver as mesmas obras de sempre, dessa vez acompanhando um cunhado do seu primo que está de passagem por Paris.
1. Minha religião proíbe visita a museus que mostram coisas velhas.
2. Não gosto de japoneses.
3. Putz, tô com uma gripe A lascada hoje.
4. Mona Lisa? Maior baranga. Investe a grana da entrada na última Playboy.
5. Quem precisa do Louvre quando se tem o Dicão? Não conhece o Dicão? Claro, claro, o nome dele é Argemiro das Dores Fortes. Conhece agora? Não? É um amigo meu, e ele tem um conhecimento tão grande sobre tudo que a turma do Biruta passou a chamá-lo de Dicionário. Depois virou Diciozão e, agora, Dicão. Pensando bem, acho que nunca te falei na turma do Biruta, um pessoal que frequentava o Bar do Biruta, lá perto de casa. Olha, acho que vou ao museu com você sim. Aí posso te contar em detalhes a história do Dicão, da turma do Biruta e da Margarida, de quem ainda não falei. Tem conversa pra uma semana aí. Desistiu de ir? Mas por quê?
6. Eu ia te propor exatamente de irmos lá hoje, mas acabei de receber uma ligação e vou ter que viajar às pressas pro Longequistão. Mó pena...
7. Não ficou sabendo? Ainda ontem transferiram o Louvre inteirinho pra Catolé do Rocha, na Paraíba.

Sete comidas exóticas francesas
1. Escargot
2. Carne moída de cavalo
3. Foie gras
4. Gafanhotos fritos
5. Linguiça de sangue
6. Coxas de rã
7. Brigitte Bardot aos 70


Fonte:
http://cheriaparis.blogspot.com/